Google+ GRITOS VERTICAIS: Insegurança Pública

domingo, 14 de outubro de 2007

Insegurança Pública


(Animal Composition – Joan Miró)
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INSEGURANÇA PÚBLICA
(André Luís Soares)
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Segunda-feira, cinco da manhã. Torrencial, a chuva castigava Vila Velha, como se quisesse lavar todos os pecados da cidade.
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Homem de 50 anos, funcionário da antiga oficina mecânica, José se dirigia à parada, onde pegaria o ônibus até Vitória. Chefe de família classe média baixa, com mulher e dois filhos, recebia mensalmente quatro salários mínimos. Não era muito, mas dava para alimentar a prole e pagar o aluguel. Somado ao que a ‘patroa’ juntava fazendo salgados, a vida não chegava a ser de miséria. O corpo, porém, já reclamava o cansaço da lida diária. Fazia tempo não andava a pé ou em veículo que não fosse próprio. Há pouco mais de três anos adquirira, com sacrifício que se estendeu à toda a família, um automóvel usado, em vinte e quatro longas prestações. No entanto, seu carro, modelo 92, fora roubado uma semana antes. ‘– Droga! – pensou – Tanta privação para comprar aquele carro... já havia até pago o IPVA’. Quase conformado e sem opções, prosseguiu sua caminhada sob a chuva.
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Andava pelas ruas com medo. Desde que adquirira o ‘possante’ não havia refletido sobre a condição dos pedestres. Agora que a eles se misturava novamente, sentia-se inseguro. O jornal de domingo havia publicado um sem-número de matérias a respeito da violência no Estado. Após ser roubado, José passou a se interessar pelas noticias. Daí que, tendo devorado o periódico, as tragédias todas agora fervilhavam em sua cabeça, como se saídas de um filme, no qual os atores, protagonistas e coadjuvantes, tinham todos, por único papel ameaçá-lo. Em cada transeunte que lhe cruzava o caminho enxergava um malfeitor, comentado em alguma noticia. Se alguém lhe fitava o rosto mais demoradamente, chegava ao pânico.
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Divagava assim, perdido em seus temores quando, ao dobrar em uma esquina a surpresa: uma voz oscilante, alternando entre o grave e o agudo, o chamara: ‘- Ei, moço!’. José vira o rosto e percebe que o chamado vem de um entre quatro jovens que se encontram a cerca de trinta metros. Do pouco que pode ver, concluiu que eram altos, morenos, oscilando entre 18 e 25 anos. Perfil muito comum aos criminosos descritos nas páginas policiais. Tal constatação catapultou seus receios às estrelas. Decidiu então não parar. O local de pegar o ônibus não deveria estar longe. Apressou o passo. Para seu espanto, novamente a voz, agora um pouco mais próxima e mais alta: ‘– Ei, tio! Espera aí!’. Decididamente não iria esperar. Correu, dobrou em outra esquina.
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Deparou-se com um ponto de ônibus cheio de pessoas encharcadas. Quase todas desprotegidas, cruzando os braços sobre o peito ou encolhidas em seus parcos agasalhos. Feliz da vida, agradeceu aos santos e tentou desaparecer em meio aos demais. Na pressa, empurrou uma idosa, pisou o pé do homem de óculos e, com o calcanhar, manchou de lama a barra da calça da jovem esbelta que lhe lançou olhar de fúria. José nem quis saber. Finalmente a salvo, balançou os cabelos, respingando outros à sua volta. Espalmou a roupa e, seguro, levantou a cabeça. Quase desmaiou... os quatros estavam ali, à sua frente, igualmente molhados e com os olhares fixos nele. A respiração ofegante indicava que também correram. José não podia crer na ousadia daqueles rapazes.
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Sentido-se relativamente protegido pelos que estavam ao redor, falou denotando a coragem que não lhe era própria: ‘– O que foi? O que querem de mim afinal?’ A resposta foi tímida: ‘– Nada moço, é que o senhor deixou cair a carteira algumas ruas atrás. Íamos devolver,... mas o senhor saiu correndo. Tá aqui ó... vê se tá tudo aí direitinho’. Acanhado, José pegou o objeto, abriu e conferiu... tudo ali, cartões, talão e dinheiro... duzentos reais. Para não ficar com a consciência pesada, resolveu dar ‘deizão’ para os meninos. ‘Afinal – pensou satisfeito – é tudo gente boa’. Sem dó, meteu a mão na carteira e, com dez reais em punho, ao levantar de novo a vista, nova surpresa: tinham ido embora.
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5 comentários:

  1. Acredite ou n�o, esse eu ainda n�o havia lido.
    Uma situa�o cada vez mais prov�vel de acontecer. Infelizmente.
    Mas vamos fazer o que n�o � mesmo? Em uma dessa, eu tamb�m saia correndo. Adorei Andr�. Deliciei-me aqui com esse texto querido.


    Beijusssssssssssssss

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  2. Magnifico seu texto!
    Adorei essa historia e enfase dos medos do homem urbano.

    Engraçado que me fez lembrar quando fui assaltado após uma abordagem tão reciproca: "Onde fica tal Entre-quadra?". Quando ia responder me apontaram uma arma e levaram minha Bike.
    Alguns dias depois, quando estava indo ao colegio, um homem veio se aproximando perguntando:"Oi, quantas horas?". Saí de perto, continuei meu trajeto e fingi nem dar atenção. Quando olho pra trás, vejo ele falar com uma moça e sair satisfeito. Parece que estaria apenas contente com as horas mesmo.

    Nessa horas a gente repensa e ver que o Ser Humano ainda tem chance.

    Irei lhe linkar, ok?
    Tem muita coisa interessante por aqui. Só preciso de algumas horas para me satisfazer aqui. Parece que vou ter que deixar de lado por um tempo livros de contos e poesia.

    Abraço!

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  3. Nessas horas pensamos: ainda há esperança!

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  4. e o seu poema relata muito arealidade em que nos estamo vivendo.


    http://www.mundosubliminar.xpg.com.br
    http://www.solendasurbanas.xpg.com.br

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  5. Boa tarde.

    Agradeço a todos pela visita, leitura e comentários. Espero que continuem presigiando os 'Gritos Verticais'.

    Muito obrigado.
    Sejam sempre muito bem vindos.

    Grande abraço!

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