Google+ GRITOS VERTICAIS: Aos Sertanejos

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Aos Sertanejos


(La Cueillette des Olives – Andre Deymonaz)
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AOS SERTANEJOS
(André L. Soares)
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Cidade grande é uma ‘belezura’,
com muita obra de envergadura,
tudo lindo, luxento e formoso,
gente correndo que nem formiga,
comendo horrores, criando barriga,
num vai-e-vem supimpa e vigoroso.
Milhões de carros em movimento,
tanto prédio, tanto apartamento,
luzes, vidro, asfalto, cor, cimento,
chegando mesmo a ser assombroso.
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Mas nisso tudo há muita tristeza...
gente vivendo em meio à safadeza,
desfrutando do fruto afanado,
homem a explorar um outro homem,
tantos querendo matar a fome,
tanta comida em supermercados.
Tanta gente a se exibir no terno,
com soberba em nível sem igual,
o povo humilde só a passar mal,
a justiça vive em bacanal,
já se tornou a matriz do inferno.
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A miséria cresce e se esparrama,
ladrão rico monta e deita cama,
a lei é dura só pra pobretões.
Os alimentos são ruins e caros,
amores são cada vez mais raros,
nas leis mortas, pairam transgressões.
A escola é vil, suja e decadente,
hospitais não curam os doentes,
aumenta só a massa dos carentes,
superlotam-se todas as prisões.
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Já na roça o mundo é mais quieto.
Povo aqui não é metido a ‘esperto’.
O caipira é até meio ‘desletrado’,
ganhando a vida sobre o torrão,
arranca um milagre com a mão,
na terra, no boi, no rio e no arado.
É sob o sol que esse povo trabalha,
com foice, enxada, faca e navalha,
tomando pinga e pitando a palha,
corpo há muito tempo calejado.
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O tabaréu fala tudo errado,
com os verbo assim, mal colocado,
sem entender metade dos nome.
Porém, não vive só de fantasia...
se amanhã nós te ‘dizê’ ‘– bom dia’,
em nossa casa’ocê dorme e come.
Se ‘bestá’, você vira até parente.
‘Desagradô’, nós diz na tua frente.
‘Home’ do campo é capiau valente...
nós não vive em meio à hipocrisia.
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Galo ‘cantô’, nós já ‘estamo’ em pé.
Nossa Senhora tem a nossa fé,
nela buscamos a redenção.
Na procissão tem santo no andor,
nas famílias sobra mais amor,
modismo aqui nem existe não.
Não se é escravo do tal de cinema,
Então nós prefere é as ‘muié’ morena,
nós quer rezar os terço e as novena,
e tocar viola ao luar do sertão.
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Mas o caboclo, não é irresponsável.
Nossa labuta, é assaz louvável.
Nós que forjamos a produção,
na roça é que o trigo é semeado,
no pasto é que o novilho é criado,
colhe-se o milho, o arroz e o feijão.
A verdade se apresenta pura...
século após século de bravura,
nós na lida com a agricultura,
desenvolvendo a nossa nação.
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Desde a data do descobrimento,
desde o nosso primeiro momento,
planta-se aqui o que essa terra der.
Luta ardente, silente vitória...
ciclo após ciclo em nossa história,
cana-de-açúcar, gado e café,
milho, cacau, soja e algodão,...
uns vivendo’inda na escravidão,
de paga a ‘pê-eme’, de arma na mão
e o sertanejo, forte,... de pé.
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Por isso, respeite os homens do campo
e não nos deixe, assim pelos cantos,
sem terra para ‘plantá’ e ‘vivê’.
Nós não morremos pobres bóia-fria
para essa corja podre de Brasília
se ‘amostrá’ às nossas custas na ‘tevê’;
rindo-se à toa do PIB elevado,
mas deixando ali, sempre de lado,
o câncer impune do Eldorado,
ferida aberta no ‘eme-esse-tê’.
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Então’ocê, rico barão togado,
professor, médico, ‘adevogado’,
medalhas, pompas pra mais de mil...
quando for sentar-se à santa ceia,
na dispensa farta, sempre cheia,
de fruta, legume, pão e pernil,
saiba que aqui sempre foi o matuto,
jeca, roceiro, leal, roto e bruto,
o honrado e sábio, homem astuto,
que com seu suor, sustenta e alimenta
esse gigante chamado 'Brasil'.
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7 comentários:

  1. Embora eu seja moradora da cidade grande, carrego em mim, na alma e a essência do sertão. Gosto dos sabores, dos odores, das cores (onde não só reside e resiste o ocre do chão, ou da seca, o escarlate do céu/do sol, sem o monocromatismo que habitou -e habita - meu imaginário e de tantas pessoas por tanto tempo e sempre), das raízes solidárias, dos juazeiros, cajazeiras, fincadas no chão, firme, segurando árvores seculares, cuidando da memória da paisagem, que é ao mesmo tempo a força e a resistência das gentes do sertão; uma gente que está virando quase peça de museu para estudos antropológicos - seu poema ratifica o brio de minha gente - as palmas que alimentam gente e gado. A paisagem sertaneja é uma paleta de cores: o amarelo-cajá, o amarelo-canário, o vermelho-flamboyant, o vermelho-pitanga; o verde-palma, verde-cana, o azul-esmaecido, azul-madreperolado, o marrom-barro.... Uma infinidade de cores saltam aos meus olhos, tanto quanto uma infinidade de imagens me fazem ver seu poema. As figuras aqui são bem tentadoras. Embora tenha preferido evocar apenas as cores...
    Ah, descobri teu blog a partir da página do Benno Asman.
    Lugar bacana pra se visitar.
    Parabéns pelo texto.
    ;-)

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  2. Maravilhoso, André!

    Beijo

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  3. Poesia engajada, reflete nosso contexto.
    excelente andré.
    bj.

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  4. André, ... sabe que esse poema pra mim é especial né?
    Não há uma vez se quer que eu o leia, que não fique encantada como fiquei da primeira vez que coloquei meus olhos nesses versos.
    Ele é lindo demais e totalmente emocionante.
    Todos os versos de uma beleza que em nada fica a dever a essa gente que é a mais preciosa de nossa poesia. Gente que faz esse Brasil de sol a sol. Incansáveis guerreiros.
    Você nesses versos fez uma merecida homenagem. Esse poema é histórico meu querido.
    Uma preciosidade pra a nossa literatura. Parabéns hoje e sempre viu. Beijussssssssssssss

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  5. Olá!
    Passeando por blogs, parei no teu. Pernambucana morando em Minas, de família sertaneja, queria te dizer o quanto gostei de sua prosa. Trouxe recordações boas do café escuro com pó no fundo da xícara, do queijo de manteiga fresquinho, do cuscuz de milho verde com leite recém-saído da vaca. Recordei ainda da ingenuidade esperta do homem sertanejo, alguém que acredita no outro até que se prove o contrário; normalmente gente de pouco estudo mas muita sapiência.
    Lembrei ainda das tardes preguiçosas passadas em cima da rede com um livro entre as mãos; do calor insuportável durante o dia em contraste com o frio (nem tão frio assim, agora sei) da noite; dos milhões de sapos estacionados feito pedras no caminho escuro; de minha avó geniosa e maravilhosa; do meu avô e suas conhecidas implicâncias (com deus, com alho, etc).
    Foi ótimo ler sua prosa. Obrigada.

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  6. esse seu conto e d+ relata a vida do sertanejo ea foma deles de pensar sobre a cidade grande,muito bom.

    http://www.mundosubliminar.xpg.com.br
    http://www.solendasurbanas.xpg.com.br

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  7. Boa tarde.

    Agradeço a todos pela visita, leitura e comentários. Espero que continuem presigiando os 'Gritos Verticais'.

    Muito obrigado.
    Sejam sempre muito bem vindos.

    Grande abraço!

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